Ayahuasca – Planta Medicinal

Ayahuasca é uma palavra que se ouve quase todos os dias por esta zona do planeta. É uma bebida psicoactiva feita a partir da combinação de uma série de plantas da selva Amazónica e utilizada há cerca de 5 mil anos pelas tribos indígenas. Apesar dos efeitos alucinogénicos que esta bebida tem, a Ayahuasca é muito mais do que isso, e há quem não aceite essa definição mas sim a de enteógeno (grego en- = dentro/interno, -theo- = deus/divindade, -genos = gerador) ou seja, acreditam que a Ayahuasca é geradora de uma divindade interna! As tribos indígenas amazónicas utilizam a Ayahuasca em cerimónias/rituais específicos e contextualizados, que acreditam terem efeitos curativos e medicinais. Daí a definição de Ayahuasca como planta medicinal. O efeito físico e psicológico desta planta é altamente complexo: é desintoxicaste do sistema digestivo (um dos desintoxicastes mais poderosos) mas também, devido à presença de DMT em quantidades superiores ao normal, provoca alucinações a vários níveis, dependendo da pessoa e da dose tomada.

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Temos ouvido muitas histórias sobre os efeitos desta medicina (vamos chamar-lhe assim), muitas delas libertadores e bonitas, mas muitas delas alucinantes e assustadoras. A verdade é que, de um modo geral, todas as pessoas que conhecemos são pessoas com uma consciência enorme sobre o seu lugar no mundo e sobre a sua espiritualidade. Aquilo que temos aprendido é que estas experiências, quando guiadas por um bom Mestre, podem ser extremamente enriquecedoras e de reencontro do ser humano com uma coisa que há muito tempo tem vindo a perder: a sua espiritualidade. A verdade é que, apesar de ficar encantado com todas as historias que ouço, e de respeitar muito a religião e a espiritualidade destas tribos, não fico convencido, por muitas razões.

Como qualquer substancia psicoactiva, a Ayahuasca faz-nos sentir o mundo de uma forma diferente, mais consciente, talvez, ou será mais distorcida? Acredito que para um indígena, que cresce e vive no seu ambiente, a experiência com esta planta medicinal seja de facto real, porque não tem expectativas e, muito menos, medos. Pelo contrário, acredito que para um ocidental vai ser simplesmente uma projecção do seu subconsciente, das suas experiências, dos seus medos, dos seus objectivos (maior parte das vezes). Pode ser muito libertador, quando estamos prontos para enfrentar os medos todos de uma vez, ou quando precisamos mesmo daquele impulso para seguir os nossos sonhos. Ou algo muito perigoso, porque, se for o caso, também nos vai prender à nossa própria realidade distorcida, às nossas crenças, à nossa versão da realidade, ao nosso ego. Claro que no primeiro caso será uma boa experiência e no segundo não, mas focando-nos no primeiro exemplo, acho que no fundo é uma experiência completamente escusada, porque qualquer ser humano é capaz de chegar a todas as conclusões que necessita por si próprio, e não será isso muito mais valioso?

E nós já conhecemos as duas versões. Conhecemos uma rapariga no Peru, super amorosa, que estava ansiosa pela sua experiência com a Ayahuasca. Uns meses mais tarde lá a fez e escreveu tudo sobre ela, e eu cheio de curiosidade claro que fui ler. Essa nossa amiga, durante uma das cerimónias, percebeu que de facto estava mesmo apaixonada pelo rapaz que tinha conhecido uns dias atrás e que este era o homem da sua vida… algo super valioso, deve ter sido uma experiência incrível, cheia de amor, mas que acho que não é necessário que seja uma planta a dizer-nos, certo?! E ainda mais intenso que isto, reviveu um sonho que tinha tido há um ano atrás, um sonho que lhe disse que ela era uma enviada de uma civilização Alien, civilização que desde há muitos milhões de anos para cá envia, através da consciência, sementes de luz para certos seres humanos, para que sejam curandeiros e seres iluminados no meio das sociedades onde vivem. Ela confirmou com esta experiência o desejo que já crescia dentro dela de aprender como curar pessoas doentes, e esta cerimónia foi a força que faltava para ela iniciar o seu processo de aprendizagem! Deve ter sido uma experiência maravilhosa, mas talvez escusada, na minha opinião, e um bocado assustadora, porque é uma experiência que te faz acreditar com tanta força nas tuas próprias alucinações, que acho que te faz perder aquela dose saudável de duvida constante: será que eu sou um pouco maluco?

Há uns dias atrás conhecemos a versão contrária, a versão perigosa, doentia, assustadora, louca, perversa e, pior que tudo, maléfica. Conhecemos um rapaz Russo, que estava no nosso hostel, e por mero acaso iniciamos uma conversa sobre este tema. É claro que ao lerem isto que estou a escrever, podem pensar: “este gajo também pensa que sabe tudo!” Pois mas não acho, e acreditem que quando falo disto com alguém tento ao máximo esvaziar-me de preconceitos e aprender o que tenho a aprender, mas a minha opinião não deixa de ser a minha opinião e é necessário que a dê. E falando com este rapaz foi o que fiz, dei a minha opinião, sempre dizendo que era só a minha opinião, gostava de ouvir a dele, porque o que queria era aprender: estava completamente 100 % disposto a ouvir o que ele me tinha para dizer! E esse foi o meu erro de certa forma, porque só já um pouco tarde me apercebi da sua loucura. A história começou com eu a contar que tínhamos conhecido um rapaz em Quito que há três anos que fazia este tipo de rituais, que nos disse que viajar 2 semanas não é o mesmo que viajar 3 anos, o que é uma grande verdade!! Outra grande verdade é que ele agora é esquizofrénico… o cérebro, por muito espiritual que a experiência seja, é um orgão, e a Ayahuasca é um alucinogénico, quer queiram chamar-lhe isso ou algo diferente. É claro que ele usou o típico argumento de que se é da natureza não pode ser uma coisa má, não pode ter sido a Ayahuasca a criar isso, e não é necessário ter medo! O tipo de argumento que me apetece responder: “Sabes que a merda de cão também é natureza? Que as cobras venenosas matam? Que os cogumelos venenosos também?” A verdade é que não disse nada disso e continuei a ouvir. Quanto mais questionava, mais fixamente ele olhava, mas eu estava na boa, queria era ouvir coisas diferentes do que aquilo que ouço de mim próprio todos os dias. E continuamos a falar, até que ele disse uma coisa que não fazia sentido com tudo o resto que estava a dizer: disse que se eu deixasse passar a experiência de fazer Ayahuasca, o meu espírito/alma nunca mais me ia perdoar. E isso para mim não fazia sentido, tudo é uma aprendizagem, tudo é um caminho, e tudo faz parte, e há sempre a possibilidade de fazer, e o não fazer também é fazer alguma coisa. E a verdade é que ele próprio percebeu a sua incoerência, porque quando eu lhe disse isto, o seu olhar ficou mais penetrante e o corpo super tenso, mas eu continuei sem me aperceber. De um momento para o outro começou a falar como um pássaro, sempre a olhar para mim fixamente, durante 5 minutos, e no final disse que eu “continuava a focar-me nas suas palavras e não no que ele estava a dizer, que poderia falar como um pássaro, e eu se quisesse poderia perceber precisamente o que eles estava a dizer sem que ele dissesse uma única palavra”. Ok, percebi que ele percebeu a sua incoerência, e não reagiu bem, mas lá continuei eu na boa a falar com ele, sem perceber o quão agressiva na realidade tinha sido a sua atitude, e enquanto ele olhava para mim, olhava eu para ele, ainda 100 % disposto a ouvir o que ele tinha a dizer, mesmo que fosse em passarês! Nesta altura a Tamára só pensava “O que estás a fazer?!”. E então continuei eu a dizer que, apesar de tudo, mesmo não tenho tido nenhuma experiência com Ayahuasca e não querendo ter, aquilo que eu aprendi no Peru, aquilo que eu aprendi sobre a cultura indígena, com o simples facto de conhecer a existência desta planta, desta forma diferente de ver as coisas, despertou algo em mim que se calhar é o mesmo esse o “conhecimento” transmitido pelas experiências cerimoniais com essa planta: despertou em mim a consciência de uma parte da minha espiritualidade com a qual eu não estava familiarizado, ou pelo menos não dava importância, esta que tenho e sempre tive (e que todos temos!!!) com a Terra, com o Sol, com os Rios… com a Natureza! E estava super feliz com isto! E ele riu-se… “também está feliz”, pensei eu! Mas não… era um riso sarcástico. Disse-me que eu estava a mentir, que ele sabia, e que o espírito dos Mestres Ancestrais de Ayahuasca, que estavam presentes através dele, também sabiam! E ficou a olhar para mim, para em desafiar, e eu como não estava a mentir, fiquei a olhar para ele. E só agora, só nesta altura, meia hora depois, é que eu me apercebi do quão distorcido e maléfico era aquele olhar e aquela presença! A Tamára diz que eu fiquei pálido, e acredito que sim, porque foi dos momentos mais assustadores da minha vida, porque pela primeira vez consegui ver a “madness” de um ser humano, e consegui porque deixei espaço para isso, e só aí me apercebi o quão burro tinha sido este tempo todo por continuar, depois de tudo, disposto a ouvi-lo. Mas não me deixei ficar e olhei até ele deixar de olhar, e que energia negativa!!! Nunca tinha sentido nada assim. Quando ele deixou de olhar e eu percebi que a conversa não ia a lado nenhum, terminei-a e fomos embora. E é este o perigo deste tipo de experiência com estas plantas: deixam o ser humano tão seguro do seu próprio ego que mesmo a loucura deixa de ser questionável, e o pior louco é que aquele que se acha um deus e não um louco!

No fundo, tudo isto são experiências que fui tendo, e como disse, a derradeira experiência não a tive: não participamos em nenhuma cerimónia. Mas agora que sei mais, sei mais que não é uma coisa que queira fazer.

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